“Dentro da normalidade, mas muito perto do limite”

Ele pegou o papel em mãos, abriu-o e analisou-o criteriosamente. Olhou-me preocupado e disse ao final:
— A frequência dos teus batimentos cardíacos está dentro da normalidade, mas muito perto do limite.

Dentro da normalidade, mas muito perto do limite.
As palavras ecoaram em meus pensamentos por algum tempo. Sem saber, o médico descreveu naquele fragmento de frase a minha vida toda: os amores que já vivi e os desamores que presenciei; os medos que tive e a quantidade de decisões que tomei por impulso; os ideais que criei e os ídolos que engoli, enfiados goela abaixo por um mundo globalizado.
Dentro da normalidade, mas muito perto do limite define também as barreiras que eu mesma criei e que mais tarde superei; o número de vezes que chorei, esbravejei e amaldiçoei vidas e almas que me prejudicaram só para, mais tarde, retirar o que eu disse numa oração de desculpas; as coisas que expus da minha própria vida e das alheias sem pesar as consequências; e as coisas que prendi em mim, em um compartimento secreto chamado ‘esquecimento’.
… as amizades separadas pela distância; os sonhos que foram esquecidos ou dos quais desisti; o número de vezes que me senti completa sozinha em uma noite qualquer e o número de vezes que me senti vazia acompanhada em um algum lugar…

Tudo dentro da normalidade. Mas muito perto do limite.

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