Almoço de domingo

Canelas e pés inchados, algumas varizes estouradas e muita dor, sorriso na boca e disposição infinita. Geni está preparando o almoço de domingo. A casa está cheia — 20 pessoas, no mínimo — mas ainda faltam mais três ou quatro.

No fogão de seis bocas, seis panelas diferentes. Arroz, feijão, macarrão, carne de gado na panela de pressão, polenta e carne de porco. No fogão à lenha, quirera e duas chaleiras esquentando água. Na geladeira, quase sem espaço, um bolo de amendoim “feito assim, no improviso, só porque fiquei sabendo que você vinha”, diz ela a um dos sobrinhos que mora longe.

Todo mundo ali, começa a comilança. A mesa, pequena, não tem espaço para todo mundo. Dolly, a cachorra, cheira todos os pés e encara todos os pratos. O sofá, singelo, está lotado, também. Geni não se senta. Faz um sanduíche com pão francês, beterraba e cebola e se delicia. Nunca vi ninguém gostar de alguma coisa assim, mas ela sorri. Os olhos, marcados pelo tempo, se contraem, buscando atentamente todos os copos, todos pratos, para ter certeza de que tudo está em ordem.

O acúmulo dos pratos ao fim do almoço e o descaso de todas as visitas não a aborrecem. Geni separa, pacientemente, todo o resto de comida e o divide entre Dolly e os cachorros dos vizinhos. Alguém se prontifica a lavar a louça. Outra pessoa começa a secar. As chaleiras de água são esvaziadas. Duas garrafas de café e o bolinho improvisado para 25 pessoas. Todos recebem prato, garfinho e uma xícara de café enquanto as pessoas conversam e combinam o jantar.

A mesa ganha, agora, outra toalha e outro tipo de função. Geni busca o baralho, o caderno e a caneta entonando canções de igreja. A família toda joga, aposta, grita, perde dinheiro. Menos Geni. Ela só assiste, dá risada. Recolhe a louça, passa a pasta e a lixa no fogão à lenha. Usa bombril no fogão de seis bocas e organiza a casa toda.

Às 16h, mais um cafezinho; 20h, Geni liga o forno; 21h, o jantar está na mesa. A novela toda se repete: Canelas e pés inchados, algumas varizes estouradas e muita dor, sorriso na boca e disposição infinita.

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